Estilo de Vida e Bem-Estar
A fórmula mágica para o emagrecimento existe?
Muitas notícias estimulam o uso de medicamentos para emagrecer, apresentando essa alternativa como rápida, fácil e livre de esforços. No entanto, é de extrema importância desmistificar o conteúdo desse tipo de informação. O Brasil é um dos países com a maior utilização de medicamentos para emagrecer1. Esse fato apresenta como principais causas o grande número de brasileiros com obesidade2, mas também a chamada "cultura da magreza"3.
A obesidade é uma das doenças que mais cresce no Brasil. Dados divulgados pelo SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), do Ministério da Saúde, que tem como objetivo principal promover informação contínua sobre as condições nutricionais da população e os fatores que as influenciam, apontam que 34,66% da população brasileira está com algum nível de obesidade. Os dados são referentes ao ano de 2024, quando foram avaliadas 26.248.805 milhões de pessoas4.
O uso de medidas farmacológicas antiobesidade é recomendado de forma complementar às intervenções no estilo de vida em pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) ≥ 30 Kg/m2 ou pacientes com IMC ≥ 27 kg/m2 com comorbidades associadas5. É fundamental levar em consideração que essa epidemiologia acaba tendo uma estratégia de resolução sociocultural que não é a melhor saída. O uso indiscriminado de substâncias emagrecedoras é um grave problema de saúde pública e pode trazer sérias consequências para a saúde6.
Uma pesquisa do Conselho Federal de Farmácia (CFF) mostrou que menos de 5% das pessoas que compram produtos emagrecedores na internet apontam, como fator de escolha, o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Para a maioria (54%), pesa a oferta de resultado rápido, o que é proibido pelas normas da agência sobre propaganda de produtos com propriedades terapêuticas. E 24% dos consumidores, na hora de escolher, guiam-se pelos comentários de quem já usou. Além disso, a pesquisa apontou que, no ato da compra, a checagem da regularidade do fabricante é desconsiderada por 48% das pessoas, e a do produto, por mais da metade (51%) dessa população7.
Esses resultados muitas vezes expressam que a motivação dessas escolhas pode ser definida a partir de uma "influência indevida do peso ou forma corporal sobre a sua autoavaliação". E se a pessoa já está com baixo peso, pode levar à uma "persistente falta de reconhecimento da gravidade do baixo peso atual", o que pode ocasionar transtornos alimentares, como a anorexia. A cultura da beleza perpetuada pelas redes sociais e pela sociedade de consumo acaba sendo, muitas vezes, um lugar de acolhimento não saudável, que valoriza uma imagem corporal extremamente idealizada e capitalizada pela indústria farmacológica e pela sociedade de consumo6.
Entre os medicamentos mais consumidos estão a associação de bupropiona + naltrexona (Contraveâ), que atuam no sistema nervoso central, com efeito sinérgico na perda de peso. A bupropiona aumenta os níveis de dopamina e norepinefrina, o que pode levar a uma diminuição do apetite e a uma maior sensação de saciedade. A naltrexona age bloqueando os receptores opioides, que são responsáveis pela sensação de prazer associada à ingestão de alimentos. Essa combinação ajuda a reduzir a ingestão calórica e a promover a perda de peso. Entretanto, pode apresentar efeitos colaterais importantes e possui diversas contraindicações, sendo que seu uso somente deve ser realizado por pacientes obesos ou com sobrepeso, e que também tenham problemas médicos relacionados ao peso, associado a uma dieta de baixo teor calórico e à atividade física8.
Outros medicamentos muito utilizados para emagrecer é o Orlistate (Xenicalâ) e o cetilistate. Eles atuam no sistema digestivo, impedindo que até 30% da gordura consumida seja absorvida, através da inibição das lipases pancreáticas, que são as responsáveis pela digestão das gorduras. Um dos efeitos indesejados está na incontinência e na urgência fecais, dificultando, muitas vezes, as tarefas diárias, seja no trabalho ou em outras atividades8.
Em 2023, a semaglutida (Wegovy®) foi aprovada pela ANVISA para o tratamento da obesidade ou do sobrepeso na presença de pelo menos uma comorbidade. Desde 2018, a semaglutida era aprovada e utilizada para o tratamento do diabetes tipo 2 (Ozempic®). Por se tratar de um agonista do receptor de GLP-1, a semaglutida estimula a secreção de insulina dependente de glicose, pelas células beta-pancreáticas. Esse mecanismo contribui para reduzir a hiperglicemia que ocorre no diabetes. Para além desse efeito, o uso da semaglutida também aumenta a sensação de saciedade e diminui o apetite. Também retarda o esvaziamento gástrico, aumenta a sensação de plenitude, reduzindo a ingestão de alimentos. Por isso, a semaglutida passou a ser um medicamento amplamente empregado para o controle de peso dos pacientes com obesidade, mesmo se tratando de um medicamento de alto custo, indisponível no SUS. Estudos clínicos evidenciaram a eficácia, a segurança e a qualidade relacionadas a sua aplicação como medicamento emagrecedor em pacientes que atendem aos critérios para obesidade ou sobrepeso com comorbidades. A dose recomendada varia com a indicação e as características do paciente. Apesar de ser bem tolerado, seu uso pode apresentar riscos e efeitos colaterais9.
Os medicamentos repercutem em benefícios para a saúde quando há indicação adequada, administração em doses apropriadas, pelas vias corretas, no momento certo e pelo tempo necessário. Entretanto, podem causar prejuízos à saúde, como reações adversas, exigindo, em alguns casos, a interrupção do tratamento. Em casos graves, podem causar hospitalização do paciente e até a morte10.
Muitas publicações estimulam o uso da semaglutida para fins estéticos e influenciam muitas pessoas a comprarem e a utilizarem o medicamento sem prescrição. Muitos problemas relacionados ao uso irracional e à automedicação com semaglutida têm ocorrido. As redes sociais acabam sendo contextos nos quais se busca acolhimento em experiências altamente competitivas no campo da idealização de sua própria imagem11.
O excesso de informações equivocadas disseminadas na internet, a "busca por soluções mágicas" e a insatisfação permanente com o corpo têm levado ao uso abusivo e irracional de medicamentos para emagrecer. Além disso, muitas apresentações falsificadas da semaglutida têm sido encontradas, comercializadas em diversos países, o que aumenta ainda mais a preocupação dos profissionais de saúde. Outros medicamentos que atuam como agonistas do receptor GLP1 e que são empregados para o controle da obesidade são a liraglutida, tirzepatida e, mais recente, a retatrudida; esta última inclusive apontada como potencial alternativa para a cirurgia bariátrica.
Diante do exposto, a fórmula mágica do emagrecimento não existe. Ao menos não sem riscos. Os medicamentos "para emagrecer" disponíveis no mercado são recomendados para o tratamento de doenças como a obesidade. O uso excessivo e indevido desses medicamentos para outros propósitos, além de ser custoso no bolso, pode ser custoso em termos de riscos e efeitos colaterais associados ao seu uso.
Referências
1. Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes [Internet].
Disponível em: https://www.unodc.org/lpo-brazil/es/drogas/jife.html
2. Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). Obesidade atingiu a marca de 9 milhões de pessoas no Brasil em 2024 [Internet].
Disponível em: https://sbcbm.org.br/obesidade-atingiu-a-marca-de-9-milhoes-de-pessoas-no-brasil-em-2024/
3. Garcia CC, Silveira VR da. Tamanho zero, a epidemia da magreza. dObra[s] – Rev. da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda. 2024;(42):33–53.
4. Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) [Internet].
Disponível em: https://sisaps.saude.gov.br/sisvan/
5. Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Diretrizes Brasileiras de Obesidade [Internet].
Disponível em: https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2019/12/Diretrizes-Download-Diretrizes-Brasileiras-de-Obesidade-2016.pdf
6. Valladares EJS, Baiense ASR. Uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento. Rev Ibero-Americana Humanid Ciências Educ (REASE). 2023;9(4):1907-1921.
7. Conselho Federal de Farmácia (CFF). Pesquisa CFF/Datafolha indica que 24% dos brasileiros já usaram substâncias para emagrecer [Internet].
Disponível em: https://site.cff.org.br/noticia/noticias-do-cff/20/06/2022/pesquisa-cff-datafolha-indica-que-24-dos-brasileiros-ja-usaram-substancias-para-emagrecer
8. Faria AM, Mancini MC, Melo ME, Cercato C, Halpern A. Progressos recentes e novas perspectivas em farmacoterapia da obesidade. Arq Bras Endocrinol Metab. 2010 Ago;54(6):516-529.
9. Chao AM, Wadden TA, Walsh O, Berkowitz RI. Semaglutide for the treatment of obesity. Trends Cardiovasc Med. 2023;33(3):159-66.
10. Pereira RMS, Oliveira AF, Souza LM, et al. O uso de medicamentos e seu impacto na saúde e na qualidade de vida. Londrina: Editora Científica; 2020.
11. Fantaus SS. Uso irracional de medicamentos: análise do conteúdo veiculado no TikTok sobre medicamentos e suplementos emagrecedores [trabalho de conclusão de curso]. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2023.
Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/265224