Uma Só Saúde
Mudanças climáticas e doenças crônicas: o impacto sobre Hipertensão e Diabetes
As mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça distante em nosso horizonte para se tornar uma realidade urgente na saúde global. Seus impactos são complexos e vão muito além dos ecossistemas, penetrando profundamente no bem-estar humano. Embora a associação com doenças infecciosas, como a dengue e a malária, seja mais conhecida, um vínculo crítico e frequentemente subestimado vem ganhando destaque na literatura científica: a relação entre as alterações climáticas e a epidemia global de doenças crônicas1,2.
Nesse cenário, a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e o Diabetes Mellitus (DM) emergem como condições crônicas não transmissíveis de maior prevalência e impacto na morbimortalidade mundial. O que torna essa relação ainda mais preocupante é a convergência entre fatores climáticos, ambientais e socioeconômicos, criando um ciclo de vulnerabilidades. Pessoas que já vivem com HAS ou DM enfrentam um risco de saúde cada vez maior, frente a um planeta em crescente aquecimento3.
A conexão fundamental entre clima e doenças crônicas reside na crescente intensidade e frequência de eventos extremos, somadas a mudanças graduais, porém persistentes, nos padrões climáticos. Destaca-se, aqui, o aumento médio da temperatura, principalmente em regiões tropicais.
O corpo sob estresse térmico: ondas de calor e de frio
O aumento das temperaturas e as ondas de calor impõem um desafio severo ao sistema cardiovascular. Para manter a temperatura interna estável, o corpo realiza um esforço adaptativo que pode desencadear cinco processos críticos: (1) dilatação excessiva dos vasos, (2) desequilíbrio do sistema nervoso, (3) arritmias, (4) inflamação sistêmica e (5) estresse oxidativo nas células4.
No calor, o organismo ativa a vasodilatação e o suor para resfriar. Porém, para hipertensos, esse esforço sobrecarrega um sistema que já está sob tensão. Além disso, a perda de líquidos pelo suor torna o sangue mais espesso (hemoconcentração), dificultando o bombeamento e elevando o risco de infartos e AVCs. Vale lembrar que o frio extremo é igualmente perigoso: ele provoca a vasoconstrição, que estreita os vasos e dispara a pressão arterial, fechando um ciclo de risco para pacientes com hipertensão mal controlada5.
As mudanças de temperatura também podem refletir no controle do Diabetes. Pacientes com DM, especialmente aqueles com neuropatia, têm sua capacidade de perceber o calor e regular a temperatura corporal comprometida6. Além disso, a desidratação severa pode precipitar emergências como a cetoacidose diabética (complicação aguda e grave do diabetes). O calor e a exposição crônica a temperaturas elevadas pode alterar a absorção e a eficácia da insulina, exigindo monitoramento glicêmico redobrado7.
Poluição Atmosférica: o ar que se respira, o sangue que circula
As mudanças climáticas agravam a poluição do ar, seja pelo aumento de ozônio ao nível do solo, seja pela queima de combustíveis fósseis ou, ainda, através de incêndios florestais cada vez mais frequentes8. A inalação crônica de partículas finas desencadeia uma cascata de inflamação sistêmica e estresse oxidativo, em que esses processos inflamatórios estão no cerne do desenvolvimento da aterosclerose e da HAS, podendo levar à vasoconstrição e ao aumento da pressão arterial9. A poluição do ar tem sido vinculada não apenas a um maior risco de desenvolver DM Tipo 2, mas também ao aumento da resistência à insulina e das complicações vasculares da doença10.
Insegurança Alimentar e Nutricional
Eventos extremos como secas e inundações devastam colheitas e podem impactar a produção de alimentos. A escassez de alimentos e o respectivo aumento dos preços induzem ao consumo de alimentos ultraprocessados, mais baratos e ricos em sódio, açúcares e gorduras. Ou seja, um padrão alimentar diretamente relacionado à obesidade, à HAS e ao DM2. Para pessoas que já são portadoras de diabetes, a dificuldade para o acesso à alimentos in natura torna o manejo dietético da doença muito mais difícil.
O peso invisível do estresse e a ruptura dos cuidados em eventos drásticos
O estresse contínuo devido a esses eventos ativa a resposta hormonal do cortisol, que eleva a glicose no sangue e a pressão arterial, desestabilizando o controle de DM e HAS. Além do dano psicológico, há o colapso físico dos sistemas: infraestruturas de saúde destruídas, cadeias de medicamentos interrompidas (como a insulina, que necessita de refrigeração) e a demora para consultas de rotina. Para uma pessoa com doença crônica, essa interrupção/demora pode ser a separação entre controle e crise.
Vulnerabilidade e Resiliência: um desafio para a Saúde Pública
O racismo climático, o qual se refere a como comunidades mais fragilizadas (geralmente comunidades racializadas, marginalizadas e de baixa renda) são diferentemente impactadas em eventos climáticos mais drásticos, acaba evidenciando uma desigualdade profunda: as populações que menos contribuíram para o aquecimento global são as que mais sofrem com a falta de infraestrutura e acesso à saúde. Esse cenário impacta diretamente idosos, pessoas de baixa renda, trabalhadores ao ar livre e indivíduos com comorbidades, que ficam vulneráveis frente a inundações e calor extremo4. A consequência é uma sobrecarga imensa nos sistemas públicos, com picos de internações por emergências cardiovasculares e diabéticas durante eventos climáticos extremos.
Diante desse cenário, uma resposta efetiva exige integrar a sensibilidade climática ao manejo das doenças crônicas, implicando vigilância inteligente através do desenvolvimento de sistemas que cruzem dados meteorológicos em tempo real com indicadores de saúde, criando alertas precoces para dias de risco extremo. Também se torna essencial estruturar planos de adaptação centrados no paciente, buscando garantir abrigos climatizados, distribuição estratégica de água, alimentos e medicamentos, além de campanhas de educação específicas para que pacientes crônicos e suas famílias saibam como se proteger e onde buscar auxílio.
Em síntese, enfrentar as mudanças climáticas é, hoje, um dos maiores desafios que a sociedade humana já enfrentou. Mitigar as emissões dos gases de efeito estufa, assim como adaptar nossos sistemas de cuidado, não se trata apenas da agenda ambiental, já que também é uma estratégia fundamental para proteger milhões de vidas e garantir que décadas de avanço no controle da Hipertensão e do Diabetes não sejam perdidas para um clima em colapso.
Referências
1. BARCELLOS, C. et al. Mudanças climáticas e ambientais e as doenças infecciosas: cenários e incertezas para o Brasil. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 18, n. 3, p. 285-304, set. 2009.
2. PATZ, J. A. et al. Impact of regional climate change on human health. Nature, [s. l.], v. 438, n. 7066, p. 310-317, nov. 2005.
3. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Climate change and health. Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-and-health. Acesso em: 1 dez. 2025.
4. SANTOS, G.M.D., CHIOCHETI, N.B. Alterações Extremas de Temperatura e Seus Efeitos no Sistema Cardiovascular. Trabalho de Conclusão de Curso (Iniciação Científica) - Congresso Nacional de Iniciação Científica (CONIC-SEMESP), São Paulo, 2015. Disponível em: https://www.conic-semesp.org.br/anais/files/2015/trabalho-1000020711.pdf. Acesso em: 1 dez. 2025.
5. LIU, C.; YAVAR, Z.; SUN, Q. Cardiovascular response to thermoregulatory challenges. Am J Physiol Heart Circ Physiol. 2015; 309(11):H1793-812.
6. PINTO, L.S.C. Efeitos climáticos na neuropatia diabética. 2018. 43 p. Dissertação de Mestrado em Bioquímica em Saúde – Ramo Bioquímica Clínica e Metabólica Disponível. Instituto Politécnico do Porto, Escola Superior de Saúde. Disponível em: https://recipp.ipp.pt/bitstreams/71b0739f-75f8-4929-a853-c9add402ca8d/download. Acesso em: 27 dez. 2025.
7. DAIN, K.; HADLEY, L. Diabetes and climate change—Two interconnected global challenges. Diabetes Research and Clinical Practice. Diabetes Res. Clin. Prato. 2012, 97, 337-339.
8. NEPSTAD, D. C. et al. Mudanças climáticas e ambientais e seus efeitos na saúde: cenários e incertezas para o Brasil. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2004. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/mudancas_climaticas_ambientais_efeitos.pdf. Acesso em: 1 dez. 2025.
9. Li, X., Tang, K., Jin, X.R., Xiang, Y., Xu, J., Yang, L.L., Wang, N., Li, Y.F., Ji, A.L., Zhou, L.X., Cai, T.J. Short-term air pollution exposure is associated with hospital length of stay and hospitalization costs among inpatients with type 2 diabetes: a hospital-based study. Journal of Toxicology and Environmental Health, Part A, 81(17), 819–829. (2018). Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30015599/. Acesso em: 1 dez. 2025.