Saúde e Gênero
Vacinação contra o HPV e prevenção do câncer de colo de útero
O câncer de colo de útero é uma doença causada, majoritariamente, pelo papiloma vírus humano, popularmente conhecido como HPV3,4. Estima-se a ocorrência de cerca de 700 mil novos casos de infecção por HPV por ano7. É o quarto tipo de câncer mais comum e a quarta causa mais frequente de morte por câncer entre as mulheres no mundo10. Trata-se de uma doença passível de prevenção, rastreamento e detecção precoce10.
Apesar de o vírus atingir 54,4% da população feminina do Brasil que já iniciou a vida sexual, graças a vacinação, é possível realizar a prevenção dessa infecção6. A principal forma de transmissão do vírus do HPV é por meio do contato sexual de qualquer tipo, incluindo relações vaginais, anais e orais2,3,9. O HPV é um vírus que, em geral, não provoca sintomas. Quando ocorre o aparecimento de sintomas, o mais comum é por meio do aparecimento de verrugas, que podem afetar, principalmente, a pele, a região genital e as mucosas, especialmente a da boca e a da laringe2,4. É importante destacar que, em algumas pessoas, pode ocorrer um período de latência, o que quer dizer que pode haver um período em que as pessoas não apresentam sintomas, porém já estão com o vírus presente no organismo2. Por isso, é importante realizar tanto o rastreamento para o câncer de colo de útero, quanto a prevenção dessa doença.
O rastreamento é realizado por meio da coleta do exame citopatológico, mais conhecido como Papanicolau ou pré-câncer. A população indicada para realizar esse rastreamento é a de mulheres com idade entre 25 até 64 anos com vida sexual ativa2. Esse exame é responsável por identificar lesões precursoras do câncer e alterações em fase inicial da doença antes da evolução para o câncer propriamente dito10.
Em julho de 2025, no entanto, uma nova diretriz a respeito do rastreamento foi aprovada pelo Ministério da Saúde. A partir de então, o teste molecular para a detecção do tipo de HPV capaz de causar câncer tornou-se o método primário de rastreio da doença1. O exame segue indicado para o mesmo grupo de mulheres de 25 a 64 anos1. Ressalta-se que é o rastreamento é feito somente em mulheres que não apresentam sintomas, como sangramento vaginal anormal e sangramento pós-coito não associados a distúrbios menstruais, visto que esses podem estar relacionados ao câncer em estágio mais avançado1.
A prevenção, por sua vez, pode ser feita por meio do uso de preservativo nas relações sexuais e também por meio da vacinação7. A vacinação contra o HPV é uma forma possível de prevenir o desenvolvimento não só do câncer de colo de útero, mas também de tumores de ânus, vagina e orofaringe9. A vacina passou a ser ofertada no Sistema Único de Saúde (SUS) a partir de 20149. Atualmente, ela é administrada em dose única e é ofertada para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, para pessoas de 9 a 45 anos que tenham o sistema imunológico comprometido (pessoas vivendo com HIV e câncer, por exemplo) e para pessoas vítimas de abuso sexual3,6,9. O Ministério da Saúde ressalta que o principal objetivo é o de promover o aumento na adesão à vacinação e melhorar a cobertura vacinal5.
No entanto, no Brasil, atualmente, enfrenta-se uma grande onda de Fake News a respeito da vacinação. Em 2024, foi levantada a questão de que a vacina contra o HPV poderia causar esterilidade e menopausa precoce. O Estadão, um importante veículo de comunicação, foi responsável por desmentir essa informação e trouxe informações verídicas provindas da Anvisa e de especialistas na área8. A notícia destaca, inclusive, que a vacina é benéfica para a saúde e tem alta eficácia contra o câncer de colo de útero8, conforme já foi explicado previamente no corpo desse texto.
Conclui-se que o câncer de colo de útero, apesar de seguir provocando mortes entre as mulheres, é uma doença capaz de ser prevenida e diagnosticada de maneira precoce. Apesar de já existir ferramentas eficazes tanto para rastreio, quanto para diagnóstico precoce, é necessário que haja a disseminação de informações corretas a fim de estimular a adesão da população. Portanto, se você leitor é uma mulher, ou é uma pessoa que convive com mulheres, reforce a importância do cuidado e da prevenção sobre o câncer de colo de útero. Essa consciência pode minimizar sofrimento desnecessário e, inclusive, salvar vidas.
Referências
1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025. Aprova as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero: Parte I - Rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2025 [citado 2025 out 1]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt
2. Instituto Evandro Chagas. Infecção pelo Papilomavírus humano em mulheres atendidas em unidades básicas de saúde de Belém, Pará, Brasil. Rev Pan-Amaz Saude [Internet]. 2021 [citado 2025 out 1];12:e202100005. Disponível em: http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-49742021000500014
3. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Rastreamento do câncer do colo do útero: recomendações para profissionais de saúde [Internet]. Rev Bras Cancerol. 2020 [citado 2025 out 1];66(2):e-011019. Disponível em: https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/690/462
4. Leto MGP, Santos Jr GF, Porro AM, Tomimori J. Infecção pelo papilomavírus humano: etiopatogenia, biologia molecular e manifestações clínicas. An Bras Dermatol. 2011;86(2):306-17.
5. Ministério da Saúde (BR). Ministério da Saúde adota esquema de vacinação em dose única contra o HPV [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2024 abr [citado 2025 out 1]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/abril/ministerio-da-saude-adota-esquema-de-vacinacao-em-dose-unica-contra-o-hpv
6. Ministério da Saúde (BR). Taxa de HPV na genital atinge 54,4% das mulheres e 41,6% dos homens no Brasil, diz estudo [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2023 dez [citado 2025 out 1]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/dezembro/taxa-de-hpv-na-genital-atinge-54-4-das-mulheres-e-41-6-dos-homens-no-brasil-diz-estudo
7. Ministério da Saúde (BR). Vacina contra o HPV: a melhor e mais eficaz forma de proteção contra o câncer de colo de útero [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2023 [citado 2025 out 1]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/vacina-contra-o-hpv-a-melhor-e-mais-eficaz-forma-de-protecao-contra-o-cancer-de-colo-de-utero/
8. O Estado de S. Paulo. É falso que vacina contra HPV cause esterilidade e menopausa precoce [Internet]. São Paulo: Estadão Verifica; 2024 [citado 2025 out 1]. Disponível em: https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/vacina-hpv-esterilidade-menopausa-falso/?srsltid=AfmBOoqbLMxdwEHaVuWIwmziRgx1XXgDPzh8jk59uJvQ7v1sD8OSm04V
9. Oliveira CM, Guimarães AMDN, Oliveira JFP, Alves RF, Sampaio LRL. Vacinação contra HPV: desafios para adesão no Brasil. Rev Bras Cancerol [Internet]. 2021 [citado 2025 out 1];67(3):e-031201. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcan/a/3wfbxrPGNvRzp4TGxFwGgny/?format=html&lang=pt
10. Teixeira LA, Fonseca SC, Ferreira LS, Cardoso AM, Theme-Filha MM. Tendência e desigualdades no rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil, 2007-2018. Cienc Saude Colet [Internet]. 2022 [citado 2025 out 1];27(6):2291-302. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csc/2022.v27n6/2291-2302/