O conceito de Neurodiversidade surgiu na Austrália, no final dos anos 1990, com Judy Singer, uma socióloga no espectro autista. Ela buscava dar visibilidade à sua própria experiência e à luta pela inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). De lá para cá, o conceito de Neurodiversidade se ampliou, abrangendo não apenas o autismo, mas também outros transtornos do neurodesenvolvimento — como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dislexia e discalculia — quadros que impactam a aprendizagem, a comunicação e o comportamento.

A palavra "neurodiversidade" não é apenas técnica. Ela ajuda na identificação, fortalece o senso de pertencimento e simboliza uma batalha contra o preconceito. É também um chamado para a acessibilidade. Isso porque a sociedade só muda com informação, conhecimento e um pouco de pressão.

Todos nós passamos por alguma dificuldade e precisamos fazer adequações ao longo da vida. Mas quando falamos em neurodiversidade, não estamos falando de ajustes simples. Estamos falando de transtornos — situações em que as dificuldades são persistentes. Mesmo com apoio, elas permanecem e seguem desafiando a pessoa no dia a dia. Para termos uma ideia: o TDAH ocorre em cerca de 7,2% das crianças do mundo todo. No caso do TEA, a prevalência global é estimada em 0,62%.1 Nancy Doyle, em seu estudo, estima que entre 15 e 20% da população mundial apresente algum tipo de diferença neurológica relevante.2 Ou seja, estamos falando de uma parcela muito significativa da população.

No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 aponta que temos cerca de 2,4 milhões de pessoas com TEA — equivalente a 1,2% da população.3 Além disso, existe a prevalência entre 5% e 8% de casos de TDAH em crianças e adolescentes.4 Ainda que esses números sejam enormes, continuamos sem políticas públicas estruturadas e consistentes. Em nosso país, vivemos alguns extremos. De um lado, diagnósticos feitos em apenas sete minutos — o que alimenta o debate sobre a hipermedicalização. De outro, crianças e adultos que nunca receberão diagnóstico; e que, por isso, seguirão à margem de uma educação adequada às suas necessidades — ou de um mercado de trabalho que acolha suas dificuldades e também suas potencialidades.

Dados do INEP mostram que apenas 42,6% das crianças com deficiência ou transtornos do desenvolvimento estão plenamente incluídas em classes comuns com acesso às turmas de atendimento educacional especializado.5 E mesmo quando estão, muitas escolas não contam com equipe de apoio — como psicólogos, fonoaudiólogos ou terapeutas ocupacionais. Professores relatam diariamente a falta de formação para lidar com alunos neurodivergentes. Por isso, é importante lembrar que, se uma escola não está preparada para essas crianças, não é a criança que falha, mas sim a escola.

Independentemente do nível socioeconômico, vemos muitas histórias se repetindo: diagnósticos atrasados, porque profissionais ainda reforçam, sem responsabilidade, a frase: "cada criança tem seu tempo"; janelas de aprendizagem perdidas, por falta de estimulação; famílias exaustas, que passam de especialista em especialista, mas não recebem o que mais precisam: acolhimento, informação e conhecimento.

Além das dificuldades na inserção de pessoas neurodivergentes na sociedade e do desamparo que essas famílias sofrem, ainda temos as notícias falsas. O Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas, juntamente com a Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas, realizou uma pesquisa na rede de teorias da conspiração do Telegram e identificaram 150 falsas causas e curas para o TEA.6 As supostas curas demonstram a gravidade dessas fake news: dióxido de cloro (CDS), ozonioterapia, eletrochoque de Tesla e ingestão de prata coloidal. Já como causas do TEA temos alimentos diversos, deficiência de vitaminas e até radiação das redes 5G.

Uma notícia falsa associada ao TDAH relacionou o uso do paracetamol durante a gestação e a presença de sintomas de desatenção e hiperatividade. A umbrella review, publicada no British Medical Journal,7 conclui que não há evidência consistente de uma relação causal entre o uso de paracetamol na gestação e o desenvolvimento de TDAH nos filhos. Embora algumas revisões sistemáticas incluídas apontem associações positivas, essas apresentam elevada heterogeneidade e baixa qualidade metodológica, sendo fortemente influenciadas por vieses de confusão, como condições maternas que motivam o uso do medicamento (febre, dor e outras condições de saúde). Quando considerados os estudos com maior rigor metodológico, a associação enfraquece ou desaparece, sustentando a interpretação de que o paracetamol não pode ser implicado como fator causal para TDAH.

A falta de suporte na saúde e na educação para pessoas neurodivergentes, juntamente com a disseminação de fake news, incentivam a discriminação e a exclusão de pessoas atípicas em nossa sociedade. Reconhecer a neurodiversidade é reconhecer que não existe um único jeito de ser humano. E, se quisermos construir políticas públicas eficazes, precisamos enxergar essa diversidade não como problema, mas como patrimônio coletivo. Porque o futuro que queremos — mais justo, mais inclusivo e mais humano — só será possível quando todas as mentes tiverem espaço para florescer.

Nosso cérebro se molda a partir dos nossos genes e da interação com o ambiente. E é justamente essa plasticidade que garante que sejamos tão diversos na forma de sentir, pensar e processar informações. A neurodiversidade não é exceção. É regra.

Referências

1. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.

2. Doyle, N. Neurodiversity at work: a biopsychosocial model and the impact on working adults. British medical bulletin, v. 135, n. 1, p. 108-125, 2020.

3. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico 2022: pessoas com deficiência e pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro autista. Resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.

4. Polanczyk GV, et al. ADHD in a representative sample of the Brazilian population. J Atten Disord. 2010. International journal of methods in psychiatric research, 19(3), 177–184.

5. Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo Escolar da Educação Básica 2024: resumo técnico. Brasília, DF: Inep, 2025.

6. Silva, E. C. M.; Garcia, A. A. F.; Almeida, G. de; Richard, J. Desinformação sobre Autismo na América Latina e no Caribe. São Paulo - SP, Brasil, 2025.

7. Zhang L, Li M, Li X, et al. Maternal paracetamol (acetaminophen) use during pregnancy and risk of autism spectrum disorder and attention deficit/hyperactivity disorder in offspring: umbrella review of systematic reviews. BMJ. 2025;391:e088141.