Atualmente, têm circulado diversas teorias tentando explicar o retorno de doenças que já eram consideradas erradicadas ou sob controle. Mas será que as vacinas têm alguma relação com isso?

Antes de responder a essa pergunta, é importante lembrar que, ao longo das últimas décadas, foram justamente as vacinas as grandes responsáveis por reduzir drasticamente — e, em alguns casos, eliminar — doenças como a poliomielite, o sarampo, a rubéola, o tétano e a coqueluche.

Como as vacinas conseguiram eliminar tantas doenças assim?

Isso ocorre devido a dois fatores: cobertura vacinal e imunidade coletiva. A cobertura vacinal corresponde à proporção de indivíduos imunizados com uma vacina específica em uma população. Quando a cobertura vacinal é alta, é desencadeada a imunidade coletiva. Tal efeito ocorre quando a maioria da população foi vacinada. Dessa forma, os agentes causadores de doenças têm dificuldades de circular, diminuindo a prevalência da doença e protegendo, inclusive, aquelas pessoas que não foram vacinadas. Entretanto, com o passar dos anos, foi registrada uma queda na cobertura vacinal e, por consequência, diminuição da imunidade coletiva.1

Mas desde quando isso vem acontecendo?

Conforme o DataSUS, índices mostram queda na vacinação desde 2016. Em 2020, por sua vez, a cobertura vacinal total era menor de 70%, o que é bem abaixo da meta de 95% de cobertura vacinal total proposta pelo Ministério da Saúde.2 Esses dados são muito preocupantes, visto que diversas doenças que já haviam sido eliminadas ou controladas no Brasil, como a poliomielite, o sarampo, a rubéola e a difteria, estão voltando a ser um risco para a saúde pública, de acordo com informações da Agência Brasil.3 Das mencionadas, a poliomielite e o sarampo são as enfermidades que geram maior preocupação por parte dos serviços de saúde.3

A poliomielite, conhecida por causar paralisia infantil, não expressava casos desde 1994 no território nacional. Passou cerca de 30 anos eliminada. Contudo, a cobertura vacinal dessa doença em 2012 era de 96,5% e, em 10 anos, ela caiu por volta de 20%, chegando a 77% em 2022. Tendo em vista esses dados, o Brasil corre sérios riscos de sua reintrodução.2

Da mesma forma que a poliomielite, o sarampo também pode voltar. Segundo o DataSUS, o Brasil tinha 81,5% de cobertura vacinal em 2019 e caiu para 53% em 2022. Além disso, em 2016, o Brasil conseguiu o certificado de eliminação do vírus do sarampo, com ajuda das campanhas de vacinação. Porém, em 2019 foram registrados 10,3 mil casos, o que fez com que o país perdesse o título.2

Além disso, conforme a Unicef, vacinas contra sarampo, caxumba e rubéola tinham uma cobertura vacinal de 93,1% em 2019, mas em 2021 esses números foram para 71,5%, segundo a entidade um dos motivos associados à queda da cobertura vacinal é a própria eficácia das vacinas.4,5 Por elas conseguirem eliminar, erradicar e controlar diversas doenças, isso influencia os pais a não acreditarem mais na real necessidade de vacinar os filhos, pois não veem essas doenças como um potencial risco à saúde dos seus filhos.2

Até mesmo a vacina contra a Covid-19 apresentou uma queda. Com base na Agência Senado, apenas 60% das crianças entre 5 e 11 anos tomaram a primeira dose, e apenas 30% tinham o esquema vacinal completo.4,5,6

Então a vacinação só é importante para crianças, já que até agora elas são o público-alvo da maior parte dos casos de reintrodução de enfermidades?

A vacinação é muito importante, tanto na infância, quanto na vida adulta. Além de salvar vidas, também ajuda a eliminar e diminuir a prevalência de doenças, como é o caso do câncer cervical, também chamado de câncer do colo do útero, em geral, é ocasionada pela infecção persistente do vírus HPV (papilomavírus humano), e acarreta o crescimento de forma descontrolada das células do útero. E, graças às vacinas, pode ser o primeiro tipo de câncer a ser completamente eliminado.5

Isso será possível se três metas forem alcançadas, segundo a OMS: vacinar 90% das meninas contra o HPV, garantir que 70% das mulheres realizem exames de rotina e assegurar que 90% das pacientes com doenças no colo do útero tenham acesso ao tratamento adequado. No entanto, a realidade ainda está distante desse cenário: atualmente, apenas 13% das meninas no mundo estão protegidas contra o HPV.7

Mas se essas doenças foram erradicadas anteriormente, como elas estão voltando?

Na verdade, essas doenças não foram erradicadas, mas sim, eliminadas do território nacional. Erradicar e eliminar doenças parecem significar a mesma coisa, mas isso não é verdade. Uma doença erradicada indica que não existem mais casos dela no mundo todo. Uma doença eliminada, por sua vez, significa que não se apresentam mais casos em um território específico, mas que ela ainda existe em outras partes do mundo.2

Enfermidades como a poliomielite, o sarampo, a rubéola e a difteria são doenças que foram eliminadas do Brasil. A única doença que foi erradicada, ou seja, cujos casos não existem mais em nenhum local do mundo, é a varíola.2,8

A varíola é uma doença infecciosa grave, altamente contagiosa, que costuma levar à morte aqueles infectados por ela. Contudo, em 1796 foi desenvolvida a vacina contra essa enfermidade. Esse fator foi muito útil na luta contra a varíola. Em 1980 ela finalmente foi erradicada, poupando diversas vidas.8

Mas por que será que as pessoas estão parando de se vacinar?

Essa pergunta não comporta apenas uma resposta, mas sim, um conjunto de fatores. Por exemplo, a hesitação vacinal, mencionada anteriormente, que está relacionada ao aumento da desinformação em saúde na internet e na repercussão do movimento antivacina. Isso fez com que muitas pessoas passassem a desconfiar do processo vacinal.2,9,10

Por fim, o retorno das doenças não está relacionado com a vacinação, mas sim, com a falta dela. O preconceito e a desinformação presentes no cenário atual desencadeiam a hesitação vacinal, gerando uma queda na cobertura vacinal, e a falta da imunidade coletiva, colocando a vida de milhares de pessoas em risco. Por esse motivo, a vacinação é necessária. Ela é a melhor ferramenta na prevenção de doenças, para evitar a sua reintrodução, e para proteger a população.9,10

Referências

1. World Health Organization. Como funcionam as vacinas. WHO. 25 fev 2025. https://www.who.int/pt/news-room/feature-stories/detail/how-do-vaccines-work.

2. Kroll, R. V. A volta de doenças controladas: o perigo das baixas coberturas vacinais. Revista Arco: Jornalismo Científico e Cultural, Santa Maria, 27 jul. 2023. https://www.ufsm.br/midias/arco/volta-de-doencas-controladas.

3. Hospital Israelita Albert Einstein. A importância da vacinação para a prevenção e controle de doenças. Vida Saudável: informação para quem se cuida, 3 set. 2025. https://www.einstein.br/n/vida-saudavel/importancia-da-vacinacao.

4. UNICEF BRASIL. Brasil vive crise prolongada na vacinação infantil, apesar de melhora em 2023, mostra anuário VacinaBR. UNICEF Brasil, Brasília, DF, 17 jun. 2025. https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/brasil-vive-crise-prolongada-na-vacinacao-infantil-apesar-de-melhora-em-2023-mostra-anuario-vacinabr.

5. Instituto Butantan. Doenças erradicadas podem voltar: conheça quatro consequências graves da baixa imunização infantil. Instituto Butantan, São Paulo, 11 jun. 2022. https://butantan.gov.br/noticias/doencas-erradicadas-podem-voltar-conheca-quatro-consequencias-graves-da-baixa-imunizacao-infantil-.

6. Westin, Ricardo. Vacinação infantil despenca no país e epidemias graves ameaçam voltar. Agência Senado, Brasília, 20 mai. 2022. https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2022/05/vacinacao-infantil-despenca-no-pais-e-epidemias-graves-ameacam-voltar.

7. Nações Unidas. Cobertura global de vacinação infantil regride três décadas. ONU News, 6 jan. 2022. https://news.un.org/pt/story/2022/01/1775572.

8. Simonsen, K. A.; Snowden, J. Smallpox (Variola). National Library of Medicine, 2023. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470418/.

9. Costa, L. P.; Martins, L. M. Impactos da queda da cobertura vacinal na reintrodução de doenças imunopreveníveis: uma revisão da literatura. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences. v.7, issue 1, 2025.

10. Pizani, D. S. A.; Dearo, M. A. F.; Pereira, A. F. O. Queda da cobertura vacinal no Brasil: causas, consequências e estratégias de enfrentamento. Arquivos de Asma, Alergia e Imunologia, São Paulo, v. 9, n. 2, 28 jul. 2025.