A sífilis é uma infecção causada pela bactéria Treponema Pallidum, que pode ser transmitida nas relações sexuais, e da mãe para o bebê durante a gestação, no parto ou através da amamentação. A doença é conhecida por ser uma “grande enganadora”. Isso porque seus sinais se parecem com os de outras doenças, o que pode confundir o diagnóstico: podem aparecer feridas nos genitais, na boca ou no reto, e manchas pelo corpo. A doença também é vista como traiçoeira porque os sintomas vêm e vão, melhoram por um tempo e depois somem, enquanto a infecção continua evoluindo silenciosamente. Dessa forma, sem tratamento, pode causar complicações graves nos ossos, no cérebro, no coração e em outros órgãos e, em casos extremos, pode inclusive levar à morte, mesmo que as manifestações iniciais já não estejam presentes.

A doença figura entre as mais antigas da humanidade. Um estudo recente constatou a evidência mais remota de sua ocorrência identificada em ossos de 9 mil anos atrás, encontrados na região do atual estado de Minas Gerais1. Há também registros da sífilis nas sociedades europeias do período medieval, entre os séculos XV e XVI2. Nessa época, sua disseminação foi abrangente em vários contextos e camadas sociais, provocando terror nos bordeis, nas igrejas e nos castelos. Várias hipóteses surgiram para explicar de onde vinha a terrível doença. Havia quem afirmava que havia chegado através de marinheiros de Cristóvão Colombo, que voltavam da recém-descoberta América, e havia também quem a utilizasse para disputas regionais: franceses culpavam os italianos que, por sua vez, acusavam os franceses3. Sem tratamento efetivo para a cura, a doença causou ondas de pânico através dos séculos.

O Brasil viveu um momento particularmente crítico entre os séculos XVIII e XIX, quando se acreditava que a doença era responsável pela fraqueza moral da nação4. O assunto era tão sério que se criou um ramo do conhecimento e da prática médica voltada especificamente para a sífilis: tratava-se da sifilografia.

A “virada” no tratamento da sífilis veio com a penicilina, o primeiro antibiótico da medicina moderna. Ela foi descoberta por Alexander Fleming em 1928, mas só passou a ser produzida em grande escala durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943, ficou provado que a penicilina curava a sífilis, e o medicamento se espalhou pelo mundo nos anos seguintes. A partir de então, a sífilis deixou de ser uma preocupação prioritária dos estados e governos para com a saúde das populações, tornando-se uma doença de menor evidência nas agendas da saúde pública. A sifilografia, como especialidade médica formal, também deixou de existir.

Com a saída da sífilis do centro das políticas e campanhas de saúde, muitas pessoas passaram a acreditar que a doença faz parte de um passado distante e que hoje em dia não há mais motivos para se preocupar. O fato de haver tratamento efetivo para a cura, diferentemente do caso do HIV/AIDS, por exemplo, também contribui para a percepção de que a doença não é mais perigosa5. A sífilis, que já enganou a humanidade por muitos séculos, está enganando mais uma vez. Ao contrário do que poderíamos supor, doença vem crescendo com força em diversos países do mundo, e não somente nos países de baixa renda. Estados Unidos, Austrália e países do continente europeu registram crescimento expressivo nos casos, como demonstram os mais recentes boletins epidemiológicos publicados por esses países6–8.

No Brasil não é diferente. Entre 2014 e 2023, os casos de sífilis adquirida passaram de 51.009 para 242.826, um salto expressivo, acompanhado também por aumentos entre gestantes e casos em bebês, que no mesmo período, passaram de 26.637 para 86.111 e 16.491 para 25.002, respectivamente9.

A boa notícia é que o primeiro tratamento descoberto para a cura da sífilis continua funcionando até hoje, e é oferecido gratuitamente no SUS. Ele é feito com penicilina benzatina, popularmente chamada de benzetacil, aplicada por injeção no músculo. Nas fases em que a infecção tem menos de um ano (primária, secundária e latente recente), normalmente basta uma aplicação. Já quando a infecção tem mais de um ano, ou quando o tempo de duração é desconhecido (latente tardia e terciária) são três aplicações, com intervalo de uma semana entre cada uma10. Gestantes seguem esse mesmo esquema terapêutico.

Como se trata de uma injeção dolorida, que pode provocar reações locais, muitas pessoas acham que possuem alergia à penicilina. Contudo, para saber se uma pessoa, de fato, é alérgica, é necessário realizar um teste de sensibilidade. No caso do paciente ser alérgico, o serviço de saúde tem a capacidade de avaliar e, quando necessário, realizar dessensibilização para permitir o uso da penicilina com segurança. O importante é não interromper o tratamento por conta própria, sem combinação com a equipe da unidade de saúde.

Depois do tratamento ser finalizado, o teste rápido costuma ficar positivo para sempre. Isso porque se trata de um teste treponêmico, ou seja, que detecta anticorpos reagentes ao Treponema Pallidum, que permanecem no organismo mesmo após a eliminação da bactéria. Contudo, isso não significa que a infecção continua ativa. Quem mostra a resposta ao tratamento é o exame VDRL: o número do VDRL deve cair ao longo dos meses após a terapia, ainda que nem sempre zere. Por isso é importante retornar para as consultas e repetir o VDRL no prazo orientado pela equipe.

Por fim, a cura não é um “escudo” permanente: sempre é possível pegar sífilis novamente. Para evitar a reinfecção, é essencial tratar também as parcerias sexuais, usar preservativo, fazer testes regulares (especialmente no pré-natal e para quem tem vida sexual ativa com diferentes parcerias) e procurar a unidade de saúde diante de qualquer ferida ou mancha suspeita. Informação correta, diagnóstico oportuno e tratamento completo quebram a cadeia de transmissão, protegendo você e quem você ama.

Referências

1. Oliveira R, Strauss A, Murrieta R, Castro C, Matioli A. An Early Holocene case of congenital syphilis in South America. Int J Osteoarchaeol. janeiro de 2023;33(1):164–9.

2. Neto BG, Soler ZASG, Braile DM, Daher W. A sífilis no século XVI- o impacto de uma nova doença. Rev Arq Ciênc Saúde. 2009;16(3):127–9.

3. Quétel C. Le mal de Naples: histoire de la syphilis. Paris: Seghers; 1986. 348 p. (Médecine et histoire).

4. Carrara S. Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil, da passagem do século aos anos 40 [Internet]. Editora FIOCRUZ; 1996. Disponível em: http://books.scielo.org/id/q6qbq

5. Ministério da Saúde inaugura a exposição “Sífilis: História, Ciência, Arte” no Rio de Janeiro [Internet]. Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/dgh/noticias/2021/ministerio-da-saude-inaugura-a-exposicao-201csifilis-historia-ciencia-arte201d-no-rio-de-janeiro

6. UNITED STATES. Sexually Transmitted Infections Surveillance, 2024 (Provisional). [Internet]. Atlanta: HHS; 2025. Disponível em: https://www.cdc.gov/sti-statistics/annual/index.html

7. AUSTRÁLIA. HIV, viral hepatitis and sexually transmissible infections in Australia: Annual Surveillance Report 2024. [Internet]. Sydney: UNSW; 2024. Disponível em: https://www.data.kirby.unsw.edu.au/syphilis

8. EUROPEAN CENTRE FOR DISEASE PREVENTION AND CONTROL (ECDC). Annual Epidemiological Report for 2023 – Syphilis [Internet]. Estocolmo: ECDC; 2025. Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/sites/default/files/documents/SYPH_AER_2023_Report.pdf

9. BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico - Sífilis [Internet]. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/boletins-epidemiologicos/2024/boletim_sifilis_2024_e.pdf/view

10. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis – IST. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2023.